Fundação Padre Albino
Mesmo após a partida, é possível continuar iluminando vidas
Alan Gazola
segunda, 09 de março, 2026

CIHDOTT dos hospitais da FPA reforça importância do diálogo familiar e destaca avanços nas captações de córneas em 2025

A doação de córneas é um dos gestos mais transformadores dentro do ambiente hospitalar. Regulamentada pelo Sistema Nacional de Transplantes essa prática permite que pacientes com doenças corneanas recuperem a visão por meio de procedimento seguro, eficaz e capaz de devolver autonomia e qualidade de vida.

Nos hospitais Padre Albino e Emílio Carlos o trabalho é conduzido com responsabilidade e sensibilidade pela Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTT). “A comissão tem papel essencial na identificação de potenciais doadores, no cumprimento rigoroso dos protocolos legais e, principalmente, na abordagem ética e humanizada às famílias. É nesse momento delicado que o diálogo se torna determinante”, diz o enfermeiro Carlos Mancini Gomes.

Entre as dúvidas mais frequentes estão quem pode ser doador? há limite de idade? a doação interfere nos ritos funerários? existe custo para a família? De acordo com as orientações disponíveis no site do Hospital Padre Albino (hospitalpadrealbino.com.br/estrutura/orgaos) a doação de córneas pode ocorrer após a confirmação do óbito e não há desfiguração do corpo. O procedimento não impede a realização de velório e não gera custos à família.

A importância do ‘Sim’
Segundo Carlos é fundamental que o desejo de doar seja manifestado ainda em vida. “Gostaríamos de reforçar nosso apelo para que os familiares possam discutir sobre seus desejos no ambiente familiar, esclarecendo dúvidas e manifestando o desejo de ser doador de órgãos ou tecidos. Isso garante mais segurança no momento da decisão e nos permite ajudar quem ainda aguarda em lista por um órgão ou tecido.”

Um ponto essencial é que a autorização para doação depende da família. “Por isso, não basta desejar ser doador; é imprescindível comunicar essa decisão aos familiares. O processo é conduzido com total respeito ao doador e à família”, ressalta.

Captações em 2025: trabalho que salva e transforma vidas
São Paulo concentra o maior número de pacientes na fila de espera por transplante de córnea no Brasil, com mais de 6.000 pessoas aguardando, resultando em tempo de espera que pode ultrapassar seis meses. O estado realizou 2.753 transplantes de córneas no primeiro semestre de 2024.
Em 2025, os hospitais Padre Albino e Emílio Carlos registraram importantes avanços nas captações de órgãos e tecidos, resultado do empenho da Comissão, do apoio das equipes assistenciais e da solidariedade das famílias que disseram “sim” à doação.
De acordo com dados fornecidos pelo setor foram 65 doações de córneas no ano passado. “Cada captação representa mais do que número: simboliza a continuidade da vida por meio da generosidade. No caso das córneas, significa devolver a visão a quem aguardava na fila por uma oportunidade de enxergar novamente”, diz o enfermeiro.

‘A visão que hoje tenho é presente de generosidade’
A história da Michelle Mazenini é exemplo de como a doação de córneas pode transformar vidas. Diagnosticada ainda na infância com doença ocular que comprometia progressivamente sua visão, ela conviveu por muitos anos com dificuldades para realizar atividades simples do dia a dia. “Antes do transplante tinha muita dificuldade em reconhecer rostos. Cheguei a perder amizades de pessoas que me cumprimentavam e eu não sabia quem era porque via tudo muito embaçado”, conta ela, dizendo que ler um texto, acompanhar algo na televisão ou até mesmo usar o celular exigia esforço e frequentemente resultava em dores de cabeça.


Foto: Arquivo Pessoal

O primeiro transplante de córnea aconteceu em 2015. Anos depois, em 2024, Michelle recebeu a notícia de que um novo doador havia sido encontrado. “Fiquei muito feliz e realizada. Após o transplante tive uma boa melhora da visão”, conta. Entre as mudanças mais marcantes está algo aparentemente simples, mas que para ela tem um significado enorme: voltar a ler. “A baixa visão me incomodava muito. Agora, em 2026, apareceu outro doador e quem sabe vou conseguir ler um livro”, diz, cheia de expectativa pelo próximo procedimento.

A gratidão também faz parte da sua história. Michelle afirma que costuma pensar frequentemente no doador e na família que tomou a decisão de autorizar a doação. “Sinto profunda gratidão. Gostaria de dizer à família muito obrigada por esse gesto de amor e generosidade em um momento tão difícil.” Como forma de reconhecimento, todos os anos ela manda celebrar missa em intenção dos doadores.

Para quem ainda aguarda na fila de transplante, Michelle deixa uma mensagem clara sobre a importância desse gesto. “A doação de córneas é gesto de amor que pode devolver a visão a quem está esperando. Quando uma pessoa doa suas córneas após a morte, ela permite que outra pessoa volte a enxergar, retome sua independência e tenha mais qualidade de vida”, afirma. Segundo ela, cada doação representa esperança real para quem vive a expectativa de voltar a ver o mundo. “A visão que hoje tenho é um presente de amor que nasceu da generosidade de uma família”, resume Michelle. “Esse gesto nunca será esquecido”.